Se a Alexandrina estivera internada e vigiada, seria curioso saber quais as conclusões a que os médicos haviam chegado.
E foi precisamente esse facto que procurámos elucidar.
O internamento da doente verificou-se com efeito no Refúgio da Paralisia Infantil, de que é director o ilustre neurologista Dr. Gomes de Araújo. Das observações diversas e aturadas feitas durante o internamento, resultou um relatório, cuja leitura nos foi amavelmente facultada. Não seguimos os passos desse documento, em todos os seus pormenores, mas vamos aludir aos seus pontos essenciais, para uma melhor compreensão do estranho caso que nele se foca.
A Alexandrina foi vista em 1941, na clínica do Sr. Dr. Gomes de Araújo, onde compareceu com o seu médico assistente, Sr. Dr. Manuel Augusto Dias de Azevedo, de Ribeirão. O diagnóstico desse exame determinou uma paralisia ergástica por compressão.
Em Maio de 1943, o Dr. Gomes de Araújo, instado pelo Dr. Azevedo e outras pessoas, que lhe afirmaram que a doente deixara de se alimentar há 13 meses, visitou-a em Balasar, na companhia do Sr. Prof. Dr. Carlos Lima, e depois dum exame neurológico e psicológico, aconselhou o internamento, para observação e tentativas de terapêutica.
Em 29 de Julho desse mesmo ano, verificou-se a entrada da enferma no Refúgio, na Foz.
Sigamos agora passos mais curiosos da observação clínica, sob todos os aspectos.
Linha genealógica da enferma e outros antecedentes: não teve ascendentes alcoólicos nem loucos, mas há algures tuberculosos e cancerosos. Aos 11 anos teve uma doença grave que parece ter sido uma febre tifóide. Quando tinha 13 anos, deu uma queda da altura de 3 metros e meio, sentindo uma dor aguda na região lombar sacra. Como a queda foi determinada por uma emoção violenta de temor, ficaram-lhe dela penosas recordações, surgindo antes os primeiros distúrbios dispépticos, com depressão neuro-psíquica: dois fenómenos paralíticos de que se libertou mais tarde. Aos 20 anos foi para o leito, por motivo dos seus padecimentos se terem agravado.
As impressões clínicas da observação acentuam: Aspecto perfeito à primeira vista, normal intelectiva, afectiva e volitivamente, mas depressa se revela portadora de um equipamento de ideias fixas, estereotipadas e sistematizadas, vivendo e sentindo intensa e sinceramente, sem sombra de mistificação ou impostura, ideias que determinam a abstinência.
E quanto a sintomas fisionómicos e morais: expressão viva, perfeita, meiga, bondosa, acariciante; atitude sincera, despretensiosa, correntia. Nem exotismo nem melifluidades; nem timidez nem exaltamento de voz. Conversa natural, inteligente, subtil.
Na vigilância feita à doente participaram várias senhoras da mais absoluta seriedade. D. Maria Guichard, D. Amélia Romualdo Ribeiro, D. Irene e D. Júlia F. Madureira Guedes, D. Rosa e D. Helena Gomes de Araújo, D. Helena G. Araújo Silva, D. Maria de Sousa Pinto e D. Maia Alice Silva Rosas. Algumas destas senhoras foram convidas a verificar a doente por se mostrarem incrédulas quanto à abstinência. E essa vigilância durou 40 dias, sendo aplicados à doente panos frescos na fronte e um saco impermeável no epigastro, com soluções de sal amargo, aliás por ela ignorados.
O médico interrogou-a longamente, tentando convencê-la a alimentar-se. Que não: sofre por amor de Deus – redargue.
Morrerá se continuar a não comer. Por isso, faz-lhe saber que vai começar a tentar uma pequena alimentação. Ela insiste na recusa: «Deus não quer que eu coma».
- Mas repugnam-lhe os alimentos?
- Não. Até por vezes tenho saudades da comida.
Concretamente – a observação e a vigilância permitiram verificar estes factos excepcionais: a doente não comeu, não bebeu, não urinou, não defecou. Citando Charcot, anota-se que a falta de apetite (anorexia mental) é dos acidentes mais graves nos histéricos. Em parte é o caso da Alexandrina. Mas só em parte. É que nela a abstinência é total, acompanhada pela paralisação da função excretora dos rins; quer dizer, nenhumas micções, como também nenhumas defecções.
O documento é uma notável peça científica e conclui desta maneira, em que o autor empenha a sua probidade profissional e pessoal:
Trata-se duma neurópata. Verificou-se durante 40 dias completa abstinência de alimentos e bebidas, o que leva a crer que tal situação possa ter notável precedência. Durante esse período não defecou nem urinou, o que ultrapassa os casos de aneura (?) conhecidos.
A despeito da normal perda de peso, conserva uma frescura e resistência impressionantes. Finalmente, oferece o aspecto dum caso que a Medicina sabe em grande parte explicar, mas não deixa contudo de patentear alguns pormenores que, pela sua importância de ordem biológica, tais a duração da abstinência de líquidos e anúria, impõem uma suspensão, aguardando que uma explicação clara faça a necessária luz.
A ciência não é definitiva, como se vê. O que é incontroverso é o facto de a doente viver há anos – sem levar à boca nem alimentos nem bebidas.
Destacamos só estas afirmações:
E quanto a sintomas fisionómicos e morais: expressão viva, perfeita, meiga, bondosa, acariciante; atitude sincera, despretensiosa, correntia. Nem exotismo nem melifluidades; nem timidez nem exaltamento de voz. Conversa natural, inteligente, subtil.
Oito dias à frente, o Dr. Dias de Azevedo, em novo artigo saído no mesmo jornal, fez alguns acertos à informação publicada e forneceu mais alguns pormenores.
E foi precisamente esse facto que procurámos elucidar.
O internamento da doente verificou-se com efeito no Refúgio da Paralisia Infantil, de que é director o ilustre neurologista Dr. Gomes de Araújo. Das observações diversas e aturadas feitas durante o internamento, resultou um relatório, cuja leitura nos foi amavelmente facultada. Não seguimos os passos desse documento, em todos os seus pormenores, mas vamos aludir aos seus pontos essenciais, para uma melhor compreensão do estranho caso que nele se foca.
A Alexandrina foi vista em 1941, na clínica do Sr. Dr. Gomes de Araújo, onde compareceu com o seu médico assistente, Sr. Dr. Manuel Augusto Dias de Azevedo, de Ribeirão. O diagnóstico desse exame determinou uma paralisia ergástica por compressão.Em Maio de 1943, o Dr. Gomes de Araújo, instado pelo Dr. Azevedo e outras pessoas, que lhe afirmaram que a doente deixara de se alimentar há 13 meses, visitou-a em Balasar, na companhia do Sr. Prof. Dr. Carlos Lima, e depois dum exame neurológico e psicológico, aconselhou o internamento, para observação e tentativas de terapêutica.
Em 29 de Julho desse mesmo ano, verificou-se a entrada da enferma no Refúgio, na Foz.
Sigamos agora passos mais curiosos da observação clínica, sob todos os aspectos.
Linha genealógica da enferma e outros antecedentes: não teve ascendentes alcoólicos nem loucos, mas há algures tuberculosos e cancerosos. Aos 11 anos teve uma doença grave que parece ter sido uma febre tifóide. Quando tinha 13 anos, deu uma queda da altura de 3 metros e meio, sentindo uma dor aguda na região lombar sacra. Como a queda foi determinada por uma emoção violenta de temor, ficaram-lhe dela penosas recordações, surgindo antes os primeiros distúrbios dispépticos, com depressão neuro-psíquica: dois fenómenos paralíticos de que se libertou mais tarde. Aos 20 anos foi para o leito, por motivo dos seus padecimentos se terem agravado.
As impressões clínicas da observação acentuam: Aspecto perfeito à primeira vista, normal intelectiva, afectiva e volitivamente, mas depressa se revela portadora de um equipamento de ideias fixas, estereotipadas e sistematizadas, vivendo e sentindo intensa e sinceramente, sem sombra de mistificação ou impostura, ideias que determinam a abstinência.
E quanto a sintomas fisionómicos e morais: expressão viva, perfeita, meiga, bondosa, acariciante; atitude sincera, despretensiosa, correntia. Nem exotismo nem melifluidades; nem timidez nem exaltamento de voz. Conversa natural, inteligente, subtil.
Na vigilância feita à doente participaram várias senhoras da mais absoluta seriedade. D. Maria Guichard, D. Amélia Romualdo Ribeiro, D. Irene e D. Júlia F. Madureira Guedes, D. Rosa e D. Helena Gomes de Araújo, D. Helena G. Araújo Silva, D. Maria de Sousa Pinto e D. Maia Alice Silva Rosas. Algumas destas senhoras foram convidas a verificar a doente por se mostrarem incrédulas quanto à abstinência. E essa vigilância durou 40 dias, sendo aplicados à doente panos frescos na fronte e um saco impermeável no epigastro, com soluções de sal amargo, aliás por ela ignorados.
O médico interrogou-a longamente, tentando convencê-la a alimentar-se. Que não: sofre por amor de Deus – redargue.
Morrerá se continuar a não comer. Por isso, faz-lhe saber que vai começar a tentar uma pequena alimentação. Ela insiste na recusa: «Deus não quer que eu coma».
- Mas repugnam-lhe os alimentos?
- Não. Até por vezes tenho saudades da comida.
Concretamente – a observação e a vigilância permitiram verificar estes factos excepcionais: a doente não comeu, não bebeu, não urinou, não defecou. Citando Charcot, anota-se que a falta de apetite (anorexia mental) é dos acidentes mais graves nos histéricos. Em parte é o caso da Alexandrina. Mas só em parte. É que nela a abstinência é total, acompanhada pela paralisação da função excretora dos rins; quer dizer, nenhumas micções, como também nenhumas defecções.
O documento é uma notável peça científica e conclui desta maneira, em que o autor empenha a sua probidade profissional e pessoal:
Trata-se duma neurópata. Verificou-se durante 40 dias completa abstinência de alimentos e bebidas, o que leva a crer que tal situação possa ter notável precedência. Durante esse período não defecou nem urinou, o que ultrapassa os casos de aneura (?) conhecidos.
A despeito da normal perda de peso, conserva uma frescura e resistência impressionantes. Finalmente, oferece o aspecto dum caso que a Medicina sabe em grande parte explicar, mas não deixa contudo de patentear alguns pormenores que, pela sua importância de ordem biológica, tais a duração da abstinência de líquidos e anúria, impõem uma suspensão, aguardando que uma explicação clara faça a necessária luz.
A ciência não é definitiva, como se vê. O que é incontroverso é o facto de a doente viver há anos – sem levar à boca nem alimentos nem bebidas.
Destacamos só estas afirmações:
E quanto a sintomas fisionómicos e morais: expressão viva, perfeita, meiga, bondosa, acariciante; atitude sincera, despretensiosa, correntia. Nem exotismo nem melifluidades; nem timidez nem exaltamento de voz. Conversa natural, inteligente, subtil.
Oito dias à frente, o Dr. Dias de Azevedo, em novo artigo saído no mesmo jornal, fez alguns acertos à informação publicada e forneceu mais alguns pormenores.
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