Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

1 – “Uma mulher que não come nem bebe há 6 anos e vive perfeitamente!...”

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Um dos primeiros testemunhos públicos, inequívoco e insuspeito, sobre o jejum da Alexandrina foi publicado em 4 de Novembro de 1947 no Jornal de Notícias. Terá sido escrito pelo próprio director desse diário portuense.
Sob o título de “Uma mulher que não come nem bebe há 6 anos e vive perfeitamente!...”, o artigo, desenvolve-se em duas partes. Começa com uma breve introdução, a que se segue uma entrevista à doente, e depois completa-se com a segunda parte, intitulada “A história da enfermidade e as conclusões clínicas que ela provocou”.
O jornalista tinha tomado conhecimento do facto invulgar e quis indagar da sua veracidade. O seu trabalho dá apenas conta do que pôde apurar, sem alguma vez se pretender substituir aos médicos judiciosos que o tinham estudado. Não acrescenta nem diminui a informação a que teve acesso. Coisa mais serena e objectiva não é legitimo pretender. Veja-se então a primeira parte, a entrevista: Haviam-nos falado da existência, em Balasar, no concelho da Póvoa de Varzim, de uma paralítica que viveria em regime de jejum integral. Conhecemos, da tradição, os grandes jejuadores a Índia, que conseguem passar largos períodos, 40 a 50 dias, sem ingerir alimentos, mas sabemos que se esses indivíduos não comem sólidos, não deixam porém de ingerir líquidos. Pelo que nos informavam, a doente de Balasar não comia nem bebia. Seria possível? Mas então como se explica a sua existência – a sua sobrevivência?
O assunto espevitou a nossa curiosidade jornalística – e decidimos tirá-lo a limpo tanto quanto os nossos meios permitissem.
Claro que a primeira ideia que nos acudiu foi ir à Póvoa.
Não se trata, aqui, como se entende, de pôr em prática a conhecida divisa de S. Tomé – «ver para crer». O facto de vermos a doente, e foi isso que tratámos de fazer, não quer dizer que nos desse a certeza de que ela se encontra em abstinência completa. Para tal seria preciso usar outros meios, que já não são da nossa competência.
Indicava-se uma observação demorada, uma vigilância permanente, durante muitos dias. Mas também esse pormenor não o descuramos, como o leitor verificará na altura própria. Por nossa parte, o que pretendíamos e o que conseguimos foi falar à paralítica, ouvir-lhe algumas palavras, colher uma impressão pessoal acerca da sua enfermidade e da sua psicologia.
A doente chama-se Alexandrina e tem presentemente 43 anos. Reside com sua mãe e sua irmã, na freguesia de Balasar, a 10 quilómetros da sede do concelho, numa pequena casa do lugar do Calvário, em cuja parede exterior se vê um azulejo com a imagem da Virgem.
À porta, quando chegámos, estacionava um automóvel. Um dos moradores do local, que nos havia indicado o caminho, elucidou-nos:
- São visitas.
E acrescentou:
- É uma excelente mulher. O que mais impressiona é que, não comendo nem bebendo, a sua aparência é relativamente magnífica. Fala pouco, mas é para todos duma grande doçura. E olhe que pensa como se fosse uma pessoa de saber.
E rematando, admirativamente:
- O que se passa com ela é um mistério!
Nesse momento saem as pessoas por quem o automóvel esperava. Depois de partirem, a Sra. Maria do Vicente, mãe da Alexandrina, manda-nos entrar.
A doente está meia deitada na cama, a cabeça e as costas amparadas em almofadas. O quarto, simples, com a claridade luzente que lhe vem duma janela ampla, está ornamentado por um crucifixo e várias imagens. Ao fundo do leito, sobre um cobertor fino, repousa um bichano de raça.
A Alexandrina, de sorriso aberto, espera talvez que lhe dirijamos a palavra. O rosto é sobre o comprido, a boca rasgada, a pele branca, um tudo-nada rosada. Seus olhos são pretos, duma luz brilhante, e os cabelos também negros, emolduram-lhe a fisionomia numa expressão de simpatia desafectada mas, tem 43 anos, mas não figura mais que 35.
Entrámos em conversa:
- Disseram-nos que não se alimenta.
- É verdade. Deixei de comer e de beber há seis anos.
- Mas não tem apetite?
- Estou sempre enfartada.
- Repugnam-lhe os alimentos?
- Não. Por vezes sinto até saudades deles.
- Então porque não aproveita essas ocasiões para tentar uma alimentação ligeira?
- Não posso. Sinto-me bem.
- Mesmo bem?
- É como quem diz: Passo bem, passando mal.
- Há que tempo está doente?
- Trinta anos. Só há 13 é que tive a primeira grande crise. Dessa vez, torturada pelo vómito, sofri um jejum de 17 dias. Vieram depois outras crises, menos prolongadas. Quando elas passavam, voltava a comer. Por fim, quase só o comia fruta. Mas há seis anos veio a crise definitiva. Então deixei os alimentos por completo.
- O seu aspecto não deixa perceber isso.
- Cada um sabe de si. Compreendo que a minha doença tem despertado curiosidade e murmurações. Aflige-me que tal suceda: desejaria que não se preocupassem comigo. De mim já se tem falado demais. Se estivesse no meu poder, metia-me num buraco.
A Alexandrina fala porém sem aborrecimentos – fala naturalmente, dizendo o que sente. Essa simplicidade é transparente. Sofre, por certo, mas resiste com alegria, couraçada por uma decidida força espiritual, a sua fé.
Insistimos no interrogatório:
- E os médicos?
- Os médicos – não dizem nada. Todas as semanas vem aqui o Sr. Dr. Azevedo, mas não me receita remédios. Há cinco anos estive em observação numa casa de saúde do Porto. Foram 40 dias de vigilância apertada, rigorosa. Mas regressei – daí como havia entrado para lá.
Passava meia hora. A enferma estava visivelmente fatigada. Despedimo-nos, fazendo votos pelas suas melhoras. Sorrindo, ela agradeceu-nos.

Não há aqui uma histérica a falar talvez dos seus ataques demoníacos, de exorcismos, de rezas e coisas do género. Não, a Alexandrina é uma mulher serena, que pensa correctamente, que possui uma “expressão de simpatia desafectada”, que não dispensa uma graça quando vem a ocasião dela: “passo bem, passando mal” (passar mal neste caso é não comer).
O articulista avança depois para a segunda parte do seu escrito.

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