sexta-feira, 6 de novembro de 2009

6 – A palavra ao Dr. Manuel Dias de Azevedo

O Dr. Azevedo alonga-se no Boletim de Graças, a partir de Abril de 1964, sobre o seu esforço para conseguir o reconhecimento médico do jejum da Alexandrina, justamente quando acabava de falecer o Dr. Gomes de Araújo.
Depois de elogiar o director do Refúgio de Paralisia Infantil e referir as conversas por si havidas com o Arcebispo de Braga, que o aconselhava a aprofundar o estudo clínico da Alexandrina, prossegue:

Fui ao Porto e convidei um médico distintíssimo a irmos a Balasar ver a Alexandrina (cuja doença ou afecção, em 15 de Julho de 1941, o Sr. Dr. Gomes de Araújo tinha classificado de paralisia orgânica por afecção medular de um ou mais focos), dizendo-lhe que não se alimentava. Respondeu-me logo que ia vê-la, quando eu quisesse. Disse-lhe, entre outras coisas, que era um caso interessante, visto que ela, além de não se alimentar, apresentava fenómenos extraordinários, que os teólogos chamavam êxtases. Então esse meu amigo respondeu-me logo que nesse caso desistia de estudar o «caso», visto que não queria meter-se em tal estudo.
Não pareceu dito próprio de tão formoso espírito que ele era. Como católico, tinha obrigação de estudar o «caso», ou para constatá-lo como admirável e respeitável coisa de Deus ou como mistificação a descobrir para não iludir ninguém. E poucos médicos estariam em tão boas condições intelectuais como ele estava. Mas as coisas são como são e, por vezes, como não devem ser.
Depois, fui convidar o Sr. Dr. Carlos Lima, e esse professor distintíssimo respondeu-me que aceitava o meu convite.
Por fim, fui convidar o Sr. Dr. Gomes de Araújo, a quem só disse tratar-se duma doente que não se alimentava. Também aceitou o meu convite, mas creio que persuadido de tratar-se duma anorexia mental igual a outro caso que já lhe tinha entregado e que ele muito bem curou, ou então duma mistificação.
Soube pouco depois que, falando-lhe alguém, na Trofa, neste caso, ele respondera que deveria tratar-se dum caso em que me iludiram e que, em poucos dias, sendo internada e vigiada a doente, depressa daria o que tinha a dar.

Continua mais adiante o Dr. Dias de Azevedo, expondo duas condições fundamentais que impôs ao Dr. Gomes de Araújo:

(…) para o internamento, fiz prometer-me duas coisas:
1.ª – Seria feito o estudo das faculdades mentais da doente, desejando saber, por escrito, se elas estavam ou não normais;
2.ª – A doente não seria obrigada a alimentar-se, a não ser que a tal fosse persuadida, nem lhe seria injectado qualquer medicamento, a não ser que ela concordasse.
Em duas palavras: queria que ficasse registado se ela vivia sem se alimentar e se as suas faculdades mentais estavam normais, estando ela internada qualquer tempo que fosse julgado necessário, concordando o Sr. Dr. Gomes de Araújo com essas condições.

Sabendo-se da idoneidade do Dr. Gomes de Araújo, estas condições só ajudavam ao rigor da observação e enquadravam-se nos objectivos que o Dr. Azevedo tinha em vista.
No Boletim de Julho seguinte, continua:

Não será demais falar no trabalho que teve o Sr. Dr. Gomes de Araújo a fim de investigar se de facto a Alexandrina vivia ou não sem a mínima alimentação, a não ser a Sagrada Eucaristia, autêntica purificação e fortaleza da Alexandrina, o que, sendo tudo, infelizmente para muitos é pouco ou nada. Essa sua investigação é tanto mais interessante quanto é certo que, a este respeito, o distintíssimo médico que era o Sr. Dr. Gomes de Araújo partia da impressão de que a Alexandrina seria uma doente que certamente queria iludir os outros. Aqueles 40 dias de rigorosa investigação foram um autêntico tormento mental para ele, disse-me uma vez a sua saudosa esposa, que também já partiu para a eternidade a receber o prémio das suas virtudes. (…)
Passados quinze dias, dizia-me o Sr. Dr. Gomes de Araújo, já no seu consultório:
- Você chegou para mim, pois comprometi-me a não forçá-la a alimentar-se e eu queria ver se ela podia ou não alimentar-se.
- Mas então, Sr. Dr., quem foi o iludido, eu por ela ou o Sr. Dr. por mim?
Nós não queremos saber se ela pode engolir ou não os alimentos, e eu sei que pode; mas, passados momentos, vomita-os.
Fiz essa experiência durante meses, desde Março de 1942 até Maio deste ano. O que quero provar ao mundo é que ela vive sem alimentação.

Passemos agora ao Boletim de Agosto:

Afirmámos no boletim anterior que aqueles 40 dias de rigorosa observação foram um autêntico tormento mental para o saudoso e distintíssimo médico que foi o Sr. Dr. Gomes de Araújo. Parece-me que nessa ocasião ele estava convicto de que ninguém tivesse passado qualquer temporada de abstinência total de sólidos e de líquidos digna de referência e contra a normalidade das exigências físico-químicas do nosso organismo.
Essas inédias, de que nos fala a hagiografia cristã, eram pouco do seu conhecimento e convicção, partindo da normal lei orgânica de que ninguém podia viver durante meses e anos sem alimentação.
Ao estar na presença duma inédia que lhe apresentávamos para estudo e averiguação, duvidou, como cientista, da sua realidade objectiva, persuadido de que não teríamos tido todo o cuidado para sermos iludidos. Era o caminho próprio e seguro que um investigador tinha a seguir, e seguiu-o no seu inquérito e rigor, sim, mas também com respeito e registo das consequências que iam derivar do seu meticulosos estudo, não se deixando perturbar, nos seus juízos sobre o caso, com as insinuações que alguém, nessa ocasião do seu estudo, lhe fora fazer e a que se refere o Sr. P.e Mariano Pinho, S.J., a pág. 186 do seu último livro –
No Calvário de Balasar – editado no Brasil:
«Concluído o rigoroso exame de quarenta dias sobre a abstinência total de sólidos e líquidos por parte da Alexan­drina, parece deveriam os adversários do caso, ao menos por prudência, calar-se. Mas nada disso: recrudesceu mais o seu zelo.
Houve até quem, ouvindo falar do exame, acorreu pressuroso ao Dr. Gomes de Araújo, antes que ele entregasse o seu relatório, a preveni-lo que “devia ter cuidado com o dito relatório, porque a Doente de Balasar era uma impostora... que ficasse certo que se tratava de uma mistificação»
[1].

Em Setembro, o Dr. Azevedo volta ao tema:

Em seis de Novembro de 1927, num sermão pronunciado na Catedral de Munique, o Cardeal Faulhaber, referindo-se aos acontecimentos de Konnersreuth (Teresa Neumann)[2], disse que “era preciso tratar estes assuntos, em primeiro lugar, com muito respeito». E somente assim podem vir a ser classificados esses fenómenos.
São acontecimentos ou fenómenos explicáveis naturalmente? Dê-se deles, nesse caso, a verdadeira explicação, para esclarecimentos de toda a gente.
Não podem ser explicados naturalmente? Então esses casos terão uma origem preternatural ou sobrenatural.
Enquanto à inédia ou conservação vital da Alexandrina sem alimentação, durante tempo indefinido, para a sua explicação, não podemos esquecer que a fisiologia e a patologia nos ensinam que ninguém pode viver treze anos e meio numa abstinência absoluta de sólidos e líquidos. A medicina não pode explicar a sobrevivência da Alexandrina pelas forças da natureza. Essa explicação só pode ser dada por influência preternatural ou sobrenatural, isto é, a sua causa só poderá ser de origem diabólica ou divina. Poderemos perfilhar a explicação que nos pareça mais razoável, mas só a Igreja docente será autêntico e definitivo juiz. Ora o Sr. Dr. Gomes de Araújo, com a sua rigorosa e inteligente investigação, baseada numa contínua e eficiente fiscalização, veio auxiliar-nos muito a formar indiscutivelmente perante o público o nosso juízo, que será definitivo e completo depois de ouvirmos a Igreja.


Como o Dr. Azevedo também quis que fossem estudadas as faculdades mentais da Alexandrina e certas pessoas, levianamente, apodam os místicos de loucos, ouçamos, para terminar, a opinião avalizada do Dr. Henrique Gomes de Araújo a este respeito:

A expressão de Alexandrina é viva, perfeita, afectuosa, boa e acariciadora; atitude sincera, sem pretensões, natural. Não há nela ascetismo, nada untuoso, nem voz tímida, melíflua, rítmica; não é exaltada nem fácil a dar conselhos. Fala de modo natural, inteligente, mesmo subtil; responde sem hesitações, até com convicção, sempre em harmonia com a sua estrutura psíquica e a construção sólida de juízos bem delineados em si e pelo ambiente, mas sempre, repetimo-lo, com ar de espontânea bondade que o clima místico que desde há tempos a circunda e que, parece, não foi por ela provocado, não modificaram.
...
[1] Quem «acorreu pressuroso» foi um colega do P.e Mariano Pinho e seu adversário. Era então um intelectual conceituado e foi por instigação sua que o P.e Pinho acabou exilado. Chamava-se Agostinho Veloso.
[2] Estamos em crer que a reserva de Braga perante a Alexandrina tem muito a ver com a atitude tomada, mais ou menos oficialmente, perante o fenómeno notabilíssimo de Teresa Neumann, a «estigmatizada de Konnersreuth», na Baviera. O próprio Cónego Molho de Faria alude a esta mística no seu O Caso de Balasar.

1 comentário:

  1. Ora, será que é tão difícil assim crer no poder de Deus!?
    Neste caso a "ciência" certamente não chegará a nenhuma conclusão. Graças a Deus!!!

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